terça-feira, 20 de agosto de 2013

3º CAPÍTULO - «UM CONTO», POR AMADEUS SARABAND

3º capítulo de «Um Conto», da autoria do escritor Amadeus Saraband. Pode ler aqui- «1º CAPÍTULO - «UM CONTO», POR AMADEUS SARABAND» e aqui- «2º CAPÍTULO - «UM CONTO», POR AMADEUS SARABAND», apanhando assim o fio à meada antes de ler a terceira parte da obra. Dou uma pequeníssima ajuda, resumindo os dois últimos parágrafos do 2º capítulo: nascimento dos filhos de Rufino Potra e Ana Milongo, dois gémeos e duas gémeas, de seus nomes João e Jacinto, Rosalía e Eva. Nesta altura da história, o tio Rufino Potra (seu sobrinho, como devem estar recordados, tinha o mesmo nome)  já havia falecido, não chegando a conhecer as crianças. Porém, tinha-o feito herdeiro de todos os seus bens, fazendo dele um dos homens mais ricos da cidade de Luanda.
Poet'anarquista

«UM CONTO», por Amadeus Saraband

3º capítulo
A Guerra Colonial
«A Revolução Interior» 
Por José Carlos Fernandes

No princípio dos anos sessenta, quando os filhos entravam na adolescência e a guerra colonial começou a fazer as primeiras vítimas é que, verdadeiramente, começaram os trabalhos deste casal. Casal que até era apontado, em certos meios, como o verdadeiro exemplo e realização da presença portuguesa em África.

Não é, porém, para falar da guerra colonial que aqui estamos. Esses assuntos apenas aqui serão abordados na medida em que tiveram influência no que pretendemos contar.

Todos os filhos de Rufino Potra e Ana Milongo tomaram partido, durante os anos sessenta, no que diz respeito à guerra. O primeiro a juntar-se à guerrilha foi o João; logo de seguida, o Jacinto desapareceu, e só um ano mais tarde deu notícias; estava em Argel e dizia que só voltaria a Angola quando esta fosse um país independente.

Mais tarde, souberam que o João tinha sido aprisionado pelas tropas portuguesas e estava preso no campo de concentração de S. Nicolau, no sul da Angola. E embora fossem permitidas algumas visitas por parte dos pais, a verdade é que nunca mais se restabeleceu a relação de intimidade que tinha existido antes.

As gémeas, Rosalía e Eva, também muito cedo se manifestaram a favor da independência de Angola.
Os quatro manos à fogueira, na conversa
Quadro de Neves e Sousa 

Quando vieram para Lisboa, já como alunas universitárias,  participaram activamente em movimentos estudantis avessos ao regime e, antes de terminarem os cursos, também rumaram a Argel e acabaram por integrar as fileiras de um dos movimentos de libertação de Angola.

Por essa altura já os negócios de Rufino estavam a correr mal.

Nada aconteceu por acaso.

Primeiro, foi o desgosto de nada saber dos filhos mais velhos; durante anos não teve a menor notícia deles. Depois, as filhas seguiram as pisadas dos irmãos e voltou a repetir-se a situação.

A mulher, Ana Milongo, refugiou-se na religião e procurou aí a cura para os desgostos.

O entusiasmo que Rufino sempre sentira pelos negócios foi esmorecendo e, por fim, desinteressou-se completamente. Os gestores que colocou à frente das empresas não terão sido a melhor escolha e rapidamente foram perdendo competitividade na economia da cidade, acabando por abrir falência.

Foi assim que aquela família, que já tinha sido um exemplo para a comunidade, se viu, no espaço de uma dezena de anos, arruinada economicamente, destroçada e dividida como agregado familiar.

Rufino, depois de liquidar o que restava dos seus negócios, passou a viver de alguns, parcos, muito reduzidos rendimentos.

Assim se viram estes dois seres, Rufino e Ana Milongo, completamente isolados, vivendo cada um em seu lado naquele enorme casarão, ali para o lado das Ingombotas.

Esse casarão fora o único património que restara dos tempos passados.

Casarão de Rufino e Ana nas Ingombotas
«Recanto dos Muceques - Luanda»
Por Neves e Sousa

Até que um dia aconteceu o inesperado : Em Lisboa, dera-se uma revolução. As Forças Armadas, através de um punhado de jovens oficiais, assumiram o poder.

«O Renascer da Esperança»
Comemoração do 25 de Abril de 1999

E, subitamente ... bem ... não tão subitamente assim, mas umas semanas depois, o filho João, que estava preso no campo de concentração de S. Nicolau, apareceu em casa e disse que o mano Jacinto também deveria regressar em breve. Quanto às manas, Rosalía e Eva, não tinha qualquer informação porque se encontravam em missão no estrangeiro e era provável que o seu regresso não se desse de imediato. Os pais, para falarmos a verdade, não o entenderam muito bem.

O entendimento completo da situação só viria depois, quando a cidade se encheu de guerrilheiros de todos os movimentos de libertação, que disputavam os diversos bairros, esquina a esquina, casa a casa. Era a guerra civil que começava a ganhar dimensão.

Quando, passados cerca de dezoito meses, se soube que os “mobutus” já estavam perto de Catete, e os “apartaides” estavam a chegar a Novo Redondo, cercando Luanda, Rufino Potra e Ana Milongo, meteram-se num avião da ponte aérea, e aterraram em Lisboa a 12 de Novembro de 1975.

Rufino e Ana Milongo no Avião para Lisboa
Por João Fontes

Os filhos já estavam todos em Luanda, mas passavam-se semanas que não iam a casa dos pais. Estes, estavam aflitos porque não compreendiam a actividade dos filhos; a segurança nas ruas era nula; todos as noites havia tiroteios na cidade; e nos últimos meses o casarão das Ingombotas tinha sido ocupado para ali instalar uma espécie de quartel-general, pois a toda a hora entravam e saíam militares. Que, embora fossem negros e mestiços, falavam espanhol. Cubanos, se diziam.

Fartos de se sentirem intrusos na sua própria casa, deixaram recados aos outros filhos e, com a ajuda de Rosalía, entraram no avião que os trouxe para Lisboa.

Amadeus Saraband

(amanhã, 4º e último capítulo)
Poet'anarquista

1 comentário:

Anónimo disse...


Mais um naipe de extraordinárias Postagens!

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Agradecida

Uma Alandroalense (L...)