segunda-feira, 26 de junho de 2017

SÁTIRA...

O Jogo do Azar
Sátira...

«O JOGO DO AZAR»

- Agora que o fogo sinistro
Foi dado como extinto,
Quero dizer o que sinto
Ao nosso Primeiro-Ministro.
- Aqui sou eu que administro…
Os ministros estão em reunião
Sobre a tragédia de Pedrógão...
Jogam à palhinha pra saber,
Quem fala no caso de perder.
- Percebi… não há explicação!

POETA

domingo, 25 de junho de 2017

PENSAMENTO...

Poeta, Dramaturgo e Actor Inglês
William Shakespeare

SÁTIRA...

Poucas e Boas
Sátira...

«POUCAS E BOAS»

- Vizinha, já viu a vergonha?...
Parece que uma explicadora
Do português conhecedora,
Bufou o exame com ronha.
- E ela não se envergonha?...
Se apanho essa corrupta,
Armo-me em filha da puta…
- Mas que pensa fazer, vizinha?
- Exigir prá minha filhinha
As provas nacionais à bruta!

POETA

quinta-feira, 22 de junho de 2017

SÁTIRA...

O Ingénuo
Sátira...

«O INGÉNUO»

Julguei morrer queimado
Era coisa da Pré-História...
Dou a mão à palmatória,
Ainda se morre assado.
Continuo bem tramado
Em pleno século XXI,
É um grande trinta e um
Este fogo noite e dia…
Com esta democracia
Não se safa nenhum!

POETA

terça-feira, 20 de junho de 2017

SÁTIRA...

A Tradição
Sátira...

«A TRADIÇÃO»

- Tonho Bosta, é urgente:
Chega de promessas…
Isto está das avessas,
Há que agir urgentemente!
- Calma, senhor Presidente…
O momento é de dor,
Tantas mortes um horror!...
Mas a tradição manda
Ficarmos pela propaganda
Nesta onda de calor!!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Misantropo em Mim», por Emil Cioran.

«O Misantropo em Mim»
O Misantropo/ Pieter Bruegel, o Velho

1039- «O MISANTROPO EM MIM»

Admito: existe um misantropo em mim. Senta-se no fundo do palco. Basta prestar atenção para encontrá-lo sempre no mesmo lugar, com seus cabelos brancos, calmamente alternando goladas de cachaça e cigarros Derby. Quase de bastidor, contempla o barulho e a fúria do movimento da vida em que os outros se engajam. Embriagados de urgências e afazeres, os outros personagens passam pelo misantropo como se ele não existisse. Não têm tempo pra isso. Mal sabem eles que, na noite da noite, quando todos estão esgotados e uma modorra se instaura no palco, o sujeito vem à frente. Nessas raras ocasiões, se pudéssemos nos esconder entre as cadeiras do teatro vazio, talvez teríamos a sorte de ouvi-lo. E ele diz: Até quando essas disputas de verdades? Daqueles que se gabam delas possuir, e que por elas guerreiam como ícones sagrados? Agitam-se, esbarram-se, despeitam-se, atacam-se, e vão arrebatando-se de fanatismos, uns depois dos outros, uma sucessão de vinganças e ofensivas. Alguns afogam-se em rancores e invejas, outros navegam sobre eles na direcção dos ventos, em qualquer caso sufocando a inteligência de vaidades, orgulhos e artigos de fé; — e para quê? Obcecaram pelo real, pelo imperativo de que algo de real definitivamente aconteça consigo, algo que verdadeiramente valha a pena. Estão cansados de esperar a sua vez, que parece jamais vir. A ponto de degustar até o desastre e a desgraça, saborear qualquer situação excepcional, mesmo que negativa, humilhante; o que consterna o rosto e pontua a fala de exasperações e demandas imediatas, e tudo isso os preenche de algum sentido. Obstinaram-se em viver seu tempo histórico, o coração armado, a mente tensa, e todos os momentos modulados à máxima concentração de forças. Inconfessadamente, querem que a existência os faça doer e ranger, para provar acima do benefício da dúvida de que estão vivos, sim, vivos aqui e agora. Os mortos não caminham connosco: nós caminhamos ao Sol! Essa certeza vital os restitui o ímpeto a cada manhã, mesmo depois das piores noites. E respiram fundo esse ar vicioso, carregado de humores venenosos. Odeiam com mais intensidade do que amam. E quando amam, amam a falsa imagem que fazem de si mesmos. Seus ódios tragam a parcimónia, deixam-se tomar por um furor que neles causa motivação e até alegria. Pretendem explorar paisagens inverosímeis, assediar os castelos da tradição, devorar os ídolos de outras gerações, sem qualquer condescendência com quem quer que seja. Meus contemporâneos batalham pelo futuro da humanidade. E eu lá tenho, ou alguma vez tive algum compromisso com a humanidade? desde quando? mas que me importa a humanidade? que importa essa mística, o velho erro e todas as cândidas intenções humanistas? Se dizem que vai acabar, me traz a sensação de alento, porque o humano nunca se colocou como ómega universal. Não sou atravessado pela humanidade, não é a minha condição. Chega desse clima de idade média, simpatia pelo inferno e gozo secreto ante as visões de fim de mundo. Escatologia de condomínio fechado, paranóia de rico, humanismo que lubrifica a máquina de torturas da Colónia Penal (menos rangidos! menos gritos!) O enfrentamento é viver e não aspira ao conforto de shopping center nem aos idílicos plastificados e prazeres customizados da geração.

Se não entenderam até agora, não vão entender nunca. O padeiro não fabrica pães pelo bem da humanidade. Vejo no outro as mãos, a pele, a dor, a loucura, a terra, a Lua, (e mesmo um quê de imortalidade), porém não posso nele enxergar a imagem e semelhança do humano. Do outro, quero a terra que levarei para o meu jardim secreto, um mundo delirante onde a única substância é o absurdo. A misantropia é condição do amor, esta afecção da imaginação, actividade imaginadora em que o outro se cria. E se cria numa imagem onde não me reconheço mais. Sem entrar nos jogos pautados pelos “resultados”, cujo nojo é preciso provar até o fim para dele se libertar, imunizado da doença infantil que acomete os humanos. Tenho o direito à misantropia. E quanto às toupeiras em posições de mando ou status, que se comprazem com as ninharias e nulidades que obtiveram numa vida obesa? Esses não merecem mais do que o desdém. Eles e todos aqueles que os servem voluntariamente, presos em medos, resignações e impotências. Para estes, só há uma via para existir: revoltar-se. Mas odiá-los seria super estimá-los. Sentir rancor, divinizá-los. Nada alvitra mais à sensibilidade do que o ressentimento diante da imundície deste mundo. Sinto-me absolutamente imune diante das mesquinharias que os fazem acordar cedo e alimentar a Grande Máquina. Uma derrisão sem limite. Se possuo uma vaidade, é do tamanho da mediocridade que encontro no dia a dia, e nada mais. Podem tentar enlamear-me com suas mazelas desinteressantes e conquistas ridículas, incitar-me ao remorso, à ferida moral, ao derrotismo romântico, mas ressurgirei intocado. Suas taras não me interessam. Fugirei para grandes espaços arejados, para o extremo sul do Brasil, e lá me confinarei em mim mesmo, sonhador de todos os mundos, na lembrança incandescente de ternuras e barricadas, nos horizontes infinitos dos pampas. Munido da grande ironia, renascerei intocado da vulgaridade. O mestre romeno tem razão, às pessoas falta a qualidade da deliquescência. É preciso aplicar na humanidade a fórmula do solvente universal.

Emil Cioran

segunda-feira, 19 de junho de 2017

PESAR

Sessenta e Dois
Pesar

«SESSENTA E DOIS»

Inferno desceu à terra,
A morte veio depois…
Ceifou sessenta e dois
Em cenário de guerra.
Rude golpe ferra
Nas vidas que desfez,
O fogo levou de vez
Muita alma inocente...
É dor que hoje sente
O povo português!

POETA

domingo, 18 de junho de 2017

SÁTIRA...

Meio Caminho Andado
Sátira...

«MEIO CAMINHO ANDADO»

- Finalmente vai acabar,
O imposto se extingue…
Sem a taxa Roaming
Na Europa vou viajar.
- Deves estar a brincar!...
O Roaming nas viagens
Não tem vantagens,
Nesse filme não entro;
Viaja pra fora cá dentro,
E aprecia as paisagens!

POETA

quarta-feira, 14 de junho de 2017

SÁTIRA...

Marchas Populares
marcha1.gif
Sátira...

«MARCHAS POPULARES»

É a Marcha Popular
Nesta dança do poder,
Venham todos ver
A Geringonça desfilar.
Não há que enganar:
Bailo eu, bailam vocês,
Bailamos todos três
Os Santos Populares…
Se o passo acertares,
Bailaremos outra vez!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

MARCUS MILLER
«Papa Was a Rolling Stone»

Poet'anarquista

Marcus Miller
Baixista de Jazz Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«Vassalagem», conto poético por René Char.

«Vassalagem»
Poema de René Char

1038- «VASSALAGEM»

O meu amor vai pelas ruas da cidade. Pouco interessa onde vai neste tempo estilhaçado. Já não é o meu amor, qualquer um lhe pode falar. Já não se lembra; quem o amou de verdade?

O meu amor busca o seu semelhante na promessa dos olhares. O espaço que ele percorre é a minha fidelidade. Desenha a esperança e logo, ligeiro, a rejeita. Prevalece sem precisar de tomar parte.

Vivo no fundo dele como um destroço de felicidade. Sem que ele se aperceba, a minha solidão é o seu tesouro. No grande meridiano em que o seu voo se inscreve,  a minha liberdade
esvazia-o.

O meu amor vai pelas ruas da cidade. Pouco interessa onde vai neste tempo estilhaçado. Já não é o meu amor, qualquer um lhe pode falar. Já não se lembra: quem o amou de verdade, e de longe o alumia para que ele não caia?

René Char

terça-feira, 13 de junho de 2017

DÉCIMAS PARA PESSOA E PESSOAS DE PESSOA

13 de Junho de 1888/ nasce o poeta Fernando Pessoa.

FITO-ME FRENTE A FRENTE

Fito-me frente a frente
E conheço quem sou.
Estou louco, é evidente,
Mas que louco é que estou?

É por ser mais poeta
Que gente que sou louco?
Ou é por ter completa
A noção de ser pouco?

Não sei, mas sinto morto
O ser vivo que tenho.
Nasci como um aborto,
Salvo a hora e o tamanho.

Fernando Pessoa

Pessoa e Pessoas de Pessoa
Cartaz Teatro Educa

I- Mote

Fito-me frente a frente
E conheço quem sou.
Estou louco, é evidente,
Mas que louco é que estou?

Fernando Pessoa

INTROSPECÇÃO

I- Glosas

Faço introspecção
Ao ver-me no espelho,
Aceito bom conselho
De irmão pra irmão.
Abro o meu coração
Com a força da mente,
Sinto o que ele sente
E nada digo a ninguém…
Quando me convém,
“Fito-me frente a frente”.

De mim pouco sabem
Passo despercebido…
Sem dar grande alarido,
Não há que me gabem.
As dúvidas acabem
Se alguma ainda restou,
Houve quem se enganou
Pensando conhecer-me…
Sou eu a contradizer-me,
“E conheço quem sou”.

Acordo meio agitado
De um sono inquieto,
O sonho anda por perto
E o tempo ali parado.
Fico assim em estado
D' aflição permanente,
Penso até estar ausente
Neste mundo perdido…
Será que perdi o sentido?
“Estou louco, é evidente”!

Não é fácil descrever
Certo estado d’alma…
Se consigo, isso acalma,
A mão deixa de tremer.
O tempo passa a correr
Como vento que passou,
Nunca mais cá voltou
Assim é desde o começo…
Louco dizem que pareço,
“Mas que louco é que estou”?

Matias José

II- Mote

É por ser mais poeta
Que gente que sou louco?
Ou é por ter completa
A noção de ser pouco?

Fernando Pessoa

II- Glosas

O vício da poesia
Foi mais forte que eu,
Bem cedo aconteceu
Escrever o que sentia.
Versar me sucedia
De alma desperta,
A métrica era certa
Na sua profundidade…
Rimar, em boa verdade,
“É por ser mais poeta”?

Pode às vezes parecer
Exagero da minha parte…
Não é preciso ter arte
Pra me dar a conhecer.
Começo por vos dizer
Que hoje acordei mouco,
A quem isto sabe apouco
Acabei por ficar mudo…
Penso de mim, contudo,
“Que gente que sou louco”!

Não há ementa perfeita
Nem sabor que se repita…
Mesmo em papel escrita,
Sai sempre outra receita.
Dizem ser imperfeita
A mão que não acerta,
Não creio estar certa
Essa forma de pensar…
Sem razão ao afirmar,
“Ou é por ter completa”?

Pequeno grão de areia
Que coisa insignificante,
Não deixa de ser brilhante
Quando nasce a lua-cheia.
De um átomo nem meia
Partícula sou tampouco,
Questiono-me semilouco
Com todo o meu empenho…
Em resposta só obtenho
“A noção de ser pouco”.

Matias José

III- Mote

Não sei, mas sinto morto
O ser vivo que tenho.
Nasci como um aborto,
Salvo a hora e o tamanho.

Fernando Pessoa

III- Glosas

Planeio separar-me
E encontrar um fim,
Iludo-me ainda assim
Ao querer achar-me.
Se ouso escutar-me
Aceito tal conforto,
Pra chegar a bom porto
Evito o compromisso…
A viver, sem dar por isso?
“Não sei, mas sinto morto”!

Nada que sou ou fui
Muda que quer que seja,
No final pouco sobeja
Quando a vida se dilui.
A alma do corpo flui
Num último desempenho,
Não sou quem a detenho
Se de mim pensa fugir…
Com ela pretende ir
“O ser vivo que tenho”.

O berço tudo me deu,
A tumba é quem o tira…
Por mais que isto fira,
Assim se estabeleceu.
Minha mãe concebeu
Pra meu desconforto,
Ao ver fiquei absorto
Com a minha imagem…
Salvo esta miragem,
“Nasci como um aborto”!

Foi num dia de Março
Que apareci no mundo…
Meu ser, antes fecundo,
Resolveu dar o passo.
Saí sem embaraço
Pra este lugar estranho,
No meio do rebanho
Senti-me deslocado…
Andei tresmalhado,
“Salvo a hora e o tamanho”.

Matias José

segunda-feira, 12 de junho de 2017

DÉCIMAS PARA RAFAEL BORDALO PINHEIRO

A Política/ 1892
Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro

A POLÍTICA

Mote

Eis a política à portuguesa:
Mudam as moscas no poder,
Não há nenhuma surpresa…
Continua a merda a feder!

Glosas

 I
Traço o retrato lastimoso
De quem governa o país,
Depois de apodrecer a raiz
Ainda dizem estar famoso.
Chega a ser vergonhoso
Já faltar o pão na mesa,
Ser cada vez mais pobreza
E uns quantos a engordar…
Amigos, não há que enganar:
Eis a política à portuguesa!

II
Sendo altura de promessas
Todos falam na mudança,
Prometem-nos a bonança
Com o tempo às avessas.
Nuvens negras dispersas...
Céu cinzento a escurecer,
O que hoje é, deixou de ser
Imediatamente a seguir…
Com tempestade a persistir,
Mudam as moscas no poder.

III
A mosca conhecido insecto
Gosta de zumbir voando…
Poisa no que estás cagando,
Como em qualquer dejecto.
Engana até o mais esperto
 Poisando com subtileza,
De bom olfacto e destreza
Camufla-se no mau odor…
Na merda os ovos vai pôr,
Não é nenhuma surpresa.

IV
Merda é merda, cheira mal,
Só fedor pra ser diferente,
Mas ainda tem certa gente
Há procura de Bosta fecal.
No desgoverno nacional
É onde se faz notar a valer,
Tudo aí pode acontecer
No meio de tanta porcaria…
Muda o cheiro de noite e dia,
Continua a merda a feder.

POETA

O ZÉ POVINHO

Primeira Caricatura do Zé Povinho/ 1875

ZÉ POVINHO

Esta figura surge pela primeira vez em 12 de Junho de 1875, na revista “A Lanterna Mágica”, pelo punho do caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro

A ilustração satírica diz respeito aos impostos, e representa o então Ministro da Fazenda Serpa Pimentel a sacar ao Zé Povinho uma esmola de três tostões para Santo António de Lisboa, representado por Fontes Pereira de Melo com o “menino” D. Luís I ao colo. A seu lado direito, o comandante da Guarda Municipal de chicote na mão, não vá o diabo tecê-las.
Poet'anarquista

SÁTIRA...

Blá, Blá, Blá
Sátira...

«BLÁ, BLÁ, BLÁ»

(Não perde p’la demora!)
- Tonho, meu camarada…
Andas a levar porrada
Por essa Europa fora.
- Ainda não fui embora,
Cá estou pra contrariar…
- Estás a pensar ganhar,
No caso de vir a perder?
- Se vier a suceder,
É certo que vou festejar!!

POETA

SÁTIRA...

Peso Pesado
Sátira...

«PESO PESADO»

- Entre o Chefe da Nação
E o Primeiro-Ministro,
Algo passa de sinistro…
Cada um em seu avião (?)
Diz a informação
Que por prudência,
Foi feita a diligência…
- Zé, era peso a mais.
- De que peso falais?
- Do peso da consciência!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOHN WETTON - «Steffi's Ring»

Poet'anarquista

John Wetton
Vocalista, Baixista e Guitarrista
Britânico

OUTROS CONTOS

«Bonecos de Luz», por Romeu Correia.

«Bonecos de Luz»
Romance de Romeu Correia

1037- «BONECOS DE LUZ»

[Excerto]

“E foi neste momento que alguém ali perto exclamou:

- A máquina dos bonecos de luz!

Intrigado com este nome - bonecos de luz?! - procurei saber que coisa era essa que a engenhoca fabricava. E as respostas chegaram-me ainda mais confusas:

- A máquina atira ali pró lençol tudo quanto a gente vê na vida! ...

- Atira pró lençol?! - exclamei, pasmado. - Mas como é que isso acontece?!

- Acendem uma luz dentro da gaja, corre uma fita... e a gente vê logo no lençol os bonecos de luz! ...

- Sem entender patavina, resolvi não fazer mais perguntas. Quando a tal fabricação começasse... então eu veria de que se tratava.

E moído de entusiasmo e de comichão - esperei ...

[...]

De repente, chispou um relâmpago sob o alpendre e que as mãos rápidas do Lopes logo abafaram de sombras enormes. E quando todas as cabeças se volviam para o sítio da engenhoca, foi então que um jorro de luz, saído pelo olho da gaja, atravessou o recinto, iluminando o lençol...

Que coisa fantástica tínhamos diante dos nossos olhos!

Letras brancas, certinhas, surgiam sobre o quadrado de pano que se tornara preto... Depois, zás!, uma casa, com portas e janelas, um bocado de céu por cima do telhado...

“Espantoso! Tudo, tudo, como a gente vê ao natural! ... Olha! Olha! Um automóvel atravessou a rua e parou à porta da casa! ...”

- Miquelina! Como é que o carro foi parar ali ao lençol?!”

Romeu Correia

sábado, 10 de junho de 2017

OUTROS CONTOS

«Este Meu Breve e Vão Discurso Humano!», conto poético por Luís Vaz de Camões.

«Este Meu Breve e Vão Discurso Humano!»
Estudo Morte de Camões/ Domingos Sequeira

1036- «ESTE MEU BREVE E VÃO DISCURSO HUMANO!»

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar;
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu.

Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 9 de junho de 2017

OUTROS CONTOS

«Um Peixe», conto poético por Patrícia Pagu Paixão.

«Um Peixe»
Poema de Patrícia Pagu Paixão

1035- «UM PEIXE»

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.

Patrícia Pagu Paixão

terça-feira, 6 de junho de 2017

SÁTIRA...

Ataques de Pânico
Sátira...

«ATAQUES DE PÂNICO»

Londres sete vítimas mortais,
Mais seis nos Estados Unidos…
Falta os que foram esquecidos,
Ao que parece não são iguais.
Começa a ser morte demais,
Talvez até acabem os vivos…
Estes pensamentos aflitivos
De inocentes que morrem…
Tantas mortes hoje ocorrem,
Mesmo sem haver motivos.

POETA

segunda-feira, 5 de junho de 2017

SÁTIRA...

Dia de Praia
Sátira...

«DIA DE PRAIA»

Zé, com protagonismo:
- O Presidente sabia
Que hoje era o dia
Mundial do Naturismo?
- Dia do Presidencialismo?...
Tal não me ocorria,
Nem ideia sequer fazia.
- Isso é puro exibicionismo...
Eu falei em Nudismo!?
- Sério?... grande heresia!!

POETA

OUTROS CONTOS

Pronto, já está!... o meu filho terminou o curso de artes teatrais (licenciatura em teatro) e foi ao banho. Comovi-me!

«A Duas Vozes», conto poético por Manel d' Sousa.

«A Duas Vozes»
Peça de Teatro: A Marioneta
Rolando Galhardas no papel de Jornalista
Texto e Direcção Artística: Rolando Galhardas

DE PAI PARA FILHO… OU VICE-VERSA

[Muitas e boas representações ao longo da vida]

1034- «A DUAS VOZES»

Cheguei a questionar
O que pretendias ser…
Cedo deu pra perceber
Que irias representar.
Vou agora rebobinar
Aquilo que disseste:
- Pai, tu não quiseste
Ser o que te apeteceu?...
Então deixa-me ser eu,
Que foi o que tu fizeste!

Manel d' Sousa

SÁTIRA...

A Praga
Sátira...

«A PRAGA»

A praga… ou as sagas?...
Se a memória não falha,
Por detrás desta canalha
Escondem-se outras pragas.
São muitas as chagas
Que o mal tem espalhado,
Paga o menos culpado
Já não é nada de novo…
Massacrar outro povo
Produz ódio exacerbado.

POETA

sábado, 3 de junho de 2017

OUTROS CONTOS

«O Velho Sobreiro», conto poético por Manel d' Sousa.

«O Velho Sobreiro»
Sítio da Horta da Vinha

1033- «O VELHO SOBREIRO»

Estou na horta a pensar
Que podia aqui viver,
Quem sabe até cá morrer
Sem ninguém me chatear.
Podia ir a sepultar
Perto do velho sobreiro,
Seria meu companheiro
Nas horas d'aflição...
Eu entregava o coração
A este amigo verdadeiro!

Manel d' Sousa

sexta-feira, 2 de junho de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE GRATEFUL DEAD - «Mexicali Blues»

Poet'anarquista

Grateful Dead
Banda Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Um Gato lá no Alto», conto poético por Arménio Vieira.

«Um Gato lá no Alto»
Conto de Arménio Vieira

1032- «UM GATO LÁ NO ALTO»

Quando e onde
não me lembro já.
Mas o certo é que a gente falava
da cauda longa dos cometas
e do calor intenso
que habita o núcleo das estrelas.

Meus olhos
estavam fitos no espaço
e de repente
vi um gato
pulando lesto e contente.
Eu juro que vi um gato
saltando de uma nuvem para outra
até ficar oculto
num floco todo branco
Confesso: tive ciúme.
“Deixe esse trapo
e salte cá para baixo”
– ia eu gritar ao gato
mas lembrei-me ainda a tempo
que a distância era muita
e que nenhum bichano entende
a conversa cá da gente.
Ainda que ele ouvisse:
o espírito de um gato
é como o canto de um poeta
– não atende nem escuta
a ordem de ninguém

Engraçado! Um gato lá no alto
entre os braços duma nuvem.
Talvez fosse
um bruxo disfarçado
ou a alma de um vate
vogando no espaço.

Arménio Vieira

quinta-feira, 1 de junho de 2017

SÁTIRA...

Valentim Loureiro, Nova Temporada
Sátira...

«VALENTIM LOUREIRO, NOVA TEMPORADA»

(O Major está de volta:)
- PSD, PSD, PSD…?
Eu disse o quê??
(Chega a escolta,
E dá-se a reviravolta:)
- Pai, tão deprimente...
Agora é Independente!
- PS, PS, PS…?
A língua não obedece!!
- Paizinho… francamente!!!

POETA

SÁTIRA...

A Raiz do Mal
Sátira...

«A RAIZ DO MAL»

- Cuido esta planta
Mas ela não cresce…
A água não desce,
Regar pouco adianta.
- A mim não espanta
O mal está na raiz,
Algo me diz
Que vai apodrecer…
- Não sei o que fazer,
Estou muito infeliz!

POETA

quarta-feira, 31 de maio de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

MÍSIA - «Xaile de Silêncio»

Poet'anarquista

Letra do Fado em: OUTROS CONTOS

Mísia
Fadista Portuguesa

OUTROS CONTOS

«Xaile de Silêncio», conto poético por Mário Cláudio.

«Xaile de Silêncio»
Diva do Fado, Amália Rodrigues

1031- «XAILE DE SILÊNCIO»

Que xaile de silêncio nos deixaste 
Que forma tão estranha de viver 
Ó voz que ardes na sombra, espinho e haste 
Lenço acenando em cada entardecer

Ao anjo português, branca tormenta 
Que os Fados te embalou, rezaste o terço 
E os barcos carregados de pimenta 
Por ti se tornariam nosso berço

As mães em ti cantavam docemente 
Doridas pela chama da amargura 
E a urze dos pinhais nascia rente 
À terra que lhes fora sepultura

Soubeste a cama estreita das varinas 
A malga, o beijo, o sono da colheita
O vulto dos amantes nas esquinas 
O voo da gaivota mais perfeita

Que xaile de silêncio nos deixaste 
Que forma tão estranha de viver 
Ó voz que ardes na sombra, espinho e haste 
Lenço acenando em cada entardecer

Mário Cláudio

terça-feira, 30 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Vê-se Dentro do Céu Prodigamente», conto poético por Dante Alighieri.

«Vê-se Dentro do Céu Prodigamente»
Dante and Beatrice/ Marie Spartali Stillman

1030- «VÊ-SE DENTRO DO CÉU PRODIGAMENTE»

Vê-se dentro do céu prodigamente
quem minha amada entre outras damas veja.
E toda aquela que a seu lado esteja
rende graças a Deus por ser clemente.

Tanta virtude tem sua beleza
que inveja acaso às outras não consente,
por isso as tem vestida simplesmente
de confiança, de amor, de gentileza.

Tudo se faz humilde em torno dela;
por ser sua visão assim tão bela
às que a cercam também chega o louvor.

Pela atitude mostra-se tão mansa
que ninguém pode tê-la na lembrança
que não suspire, no íntimo, de amor.

Dante Alighieri

SÁTIRA...

Vem aí o Verão
verao1.gif
Sátira...

«VEM AÍ O VERÃO»

Está a chegar o Verão
Vou ter que adelgaçar…
Pró bikini poder usar,
Uma dieta é solução (?)
No Inverno absorção
De tudo que se come,
No Verão passo fome
Fico sem ter apetite…
A cabeça não admite
Este corpo disforme!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Menino e a Fonte», por Juan Ramón Jiménez.

                                                                              «O Menino e a Fonte»
 Juan Ramón Jiménez – Platero e Eu, Cap. XLII

1029- «O MENINO E A FONTE

[Excerto]

«Na aridez abrasada de sol do grande lago poeirento que, por mais leve que se pise, cobre a gente, até os olhos, de branca poeira peneirada, o menino e a fonte formam um grupo risonho e esplêndido, cada qual com a sua alma. Embora ali não haja uma única árvore, o coração, em chegando, se enche de uma palavra que os olhos fixam, gravada no céu azul da Prússia, com grandes letras de luz: OÁSIS.

A manhã já tem um calor de sesta e a cigarra chia nas oliveiras, para as bandas do cercado de San Francisco. O sol bate em cheio na cabeça do menino. Ele, porém, distraído com a água, não sente.

Estendido no chão, está com a mão sob o jorro vivo, e a água lhe põe na palma um borbotante tesouro de frescura e de graça que seus negros olhos comtemplam em êxtase. Fala sozinho, respira fundo, coça-se aqui e ali, com a outra mão. O tesouro, sempre igual e diferente sempre, desfaz-se às vezes.

O menino, então, se retrai, apruma-se, concentra-se para que nem essa pulsação do sangue que, como um espelho que se movesse sozinho, muda a sensível imagem do calendoscópio, roube à água a primitiva forma surpreendida.

Platero, não sei se entenderás ou não o que te digo: mas esse menino tem a minha alma em sua mão».

Juan Ramón Jiménez